Enóloga Brasileira Maria Flores visitou a Madeira

Um pedaço de rocha cercado de mar. Assim é definida a Ilha da Madeira, terra isolada, cujo continente mais próximo é a África e que tem uma das paisagens mais exóticas do mundo do vinho. Colonizada em meados de 1400 pelos portugueses, tem esse nome pela densa floresta que impossibilitava o acesso a ela. Conta a história que a ilha teria queimado por sete anos, tamanha quantidade de bosque fechado, antes de ser realmente povoada. A localização era estratégica como parada das grandes navegações: frutas, verduras, tudo o que pudesse ser produzido era fundamental para a continuação das viagens.

A capital Funchal tornou-se centro de comércio e abastecimento. Um dos males dos navegadores era o escorbuto, doença causada por falta de vitaminas, o que fazia com que muitos morressem em alto mar. Na época, a indicação era o consumo de vinho. Assim, a partir de 1450 há registros de produção da bebida na ilha para esse fim. Acontece que o vinho produzido era muito fraco para suportar o calor e a umidade dos barcos. Aos poucos, a técnica de fortificá-lo com rum ganhou espaço, porque a ilha cultivava cana-de-açúcar. Mas o resultado não era tão agradável.

Após uma longa viagem marítima, um barril que sobrou foi levado de volta à Madeira, e, ao degustarem, perceberam a saborosa transformação. O barril foi exposto a situações extremas de frio e calor, fazendo com que a bebida oxidasse e desenvolvesse aromas únicos. A técnica passou a ser repetida – são conhecidas histórias dos vinhos de “roda”, colocados em barcos para girarem pelo mundo, barris expostos ao sol nos pátios das adegas, até a descoberta do sistema de estufagem e a tecnologia hoje existente. As uvas hoje são Tinta Negra e as brancas Boal, Sercial, Verdelho, Malvasia, estando praticamente extintas Terrantez e Bastardo. São apenas seis vinícolas que elaboram cerca de 4 milhões de litros: as grandes Madeira Wine Company e Justino’s, as familiares H&M Borges, Henriques e Henriques, Pereira e Oliveira e a pequenina Barbeito, que a crítica de vinhos Jancis Robinson classificou como um Chateau Lafite da Madeira pelo empenho na elaboração.

As uvas são produzidas por pequenos agricultores, de no máximo dois hectares, em toda a ilha. Cada centímetro de terra é aproveitado, pois são mínimas as áreas planas. Estradas e até o aeroporto são feitos sobre o mar. sendo a Madeira uma verdadeira expressão de vulcanismo com montanhas cobertas de pequenos quadrados de vinhedos. Tem as quatro estações do ano no mesmo dia: próximo ao mar, o sol e temperatura alta. Na colina, está nublado e frio. Ocorre a colheita, a fermentação é iniciada e parada com adição de álcool vínico. Assim, o vinho é doce naturalmente. Após, pode seguir dois caminhos conforme sua qualidade: o processo de estufagem ou canteiro. Na estufagem, o vinho permanece por três meses a 45 graus, oxidando todos os componentes. No canteiro, vai para barris usados, cuja função não é dar gosto de madeira, mas possibilitar a oxidação de forma muito lenta. O processo resulta em um vinho praticamente indestrutível, que pode durar séculos. Há vinhos na Madeira elaborados em 1770 e estoques ainda em barris de vinhos de 1900.

Na Barbeito, há a chance de degustar desde vinhos jovens até os da metade e do início do século. Na Pereira e Oliveira, a coleção do início do século é um patrimônio, só garantido pelo isolamento da ilha e anos de guerras em que as exportações foram impossíveis. É um dos vinhos mais míticos e históricos do mercado, não deve se limitar ao uso culinário, merece ser apreciado e estudado. A garrafa do Madeira deve ser guardada em pé, pois a rolha não suporta a estrutura dos componentes. Após aberto, não tem limite de prazo. Acompanha sobremesas com chocolate, caramelo e é excelente opção de aperitivo.

* Enóloga
 

MARIA AMÉLIA FLORES *

in ZERO HORA

 

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